25.10.04

ESCUTO

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

Sophia de Mello Breyner Andresen

Triste condição

Divorciados com risco
acrescido de ter um
acidente de viação
(Jornal Público de 24.10.04)
Moral da história: à cautela o que é melhor mesmo é não dar o passo... do casamento!

21.10.04

Eleições americanas:um travo na boca com sabor amargo?



19.10.04

Il Cristo Velato

Il Cristo Velato
(A Sanmartino)

Tendido allì, adormecido allì
Su cuerpo blanco ofrecido allì
Sin dolor a pesar de las heridas...
La eternidad se arrodilla frente a él
Silencio

Pude una vez acariciar le emocionada
Y su piel frì acaricio mi alma
Cò descibir la vida que me ha dado
El que se ofrece generoso
Ante la aparencia del marmol
La visiòn es enganosa, la realidad es enganosa

Quisiera levantar el velo que le cubre
Besar sus manos calladas
Su frente, su boca
Sus brazos abandonadas
Con la ternura inmensa
Que inspira su belleza

Isabelle Lagos

posted by flagal

17.10.04

Arte de marear

Como quem descai pelas fragas
ou como quem esteja caindo desenraizado,
ando navegando,
marcado pela errância e pela viagem,
à procura de palavras novas
encaixando-as com as minhas;
assim,
redescobrindo as experiências feitas
e olhando novamente para dentro,
indo a caminho para o indefinido
no enfrentar a História mareando.

Francesco Giugliano
Nápoles, 16.10.2004


16.10.04

Nápoles em retrospectiva - I

9 de Outubro. O reencontro anunciado, na estação Central em Nápoles. Ontem despedia-me da cidade berço, a magnífica Guimarães com um centro histórico deslumbrante, hoje conhecia o movimento febril napolitano resgatando ao passado de adiamentos, uma viagem há muito projectada e obrigatória por motivos vários. Num de repente vi-me mergulhado no turbilhão do trânsito caótico das ruas, onde vale quase tudo, mas em que todas as partes interessadas conseguem encontrar um ponto de equilíbrio no movimento desordenado. Nas primeiras horas, vertiginosas como a cidade, percorri séculos de história e de histórias: o café tomado na esplanada do pequeno jardim e a vista soberba sobre a parte da cidade à beira-mar e sobre o Golfo de Nápoles, a partir do Quartieri Posillipo erguido numa das suas colinas, a passagem pelo Quartieri Vomero, bairro elegante e com sofisticação europeia, a ida ao lago d'Averno (a entrada do Inferno de que fala Virgílio na Eneida), a gruta da Sibila Cumana (um dos mais famosos oráculos), à noite uma ida à cidade de Pozzuoli (primeiro porto do Império Romano), ver as colunas e a estrutura parcial do Templo de Serápide, e muito mais que os olhos absorveram. Mas há um recorte na paisagem, incontornável, omnipresente: o Vesúvio. Por si só e pelo lugar que ocupa na memória e no dia-a-dia, ainda que de forma subtil ou pressentida, na espiral de rodopio da sua vivência destas gentes, merecerá outra distinção retrospectiva.

Pozzuoli - Templo de Serápide
(foto extraída de http://www.ulixes.it/italiano/)

Começando pelo fim

As férias gozadas descrevem-se sincrónica ou diacronicamente? Hesito. Na dúvida utilizo uma expressão menos difícil: começando pelo fim. O último dia. Um dos mais marcantes de nove passados em Nápoles. A razão não é única. São dois os momentos que registei, em emoções. Um, na descoberta da imagem de mármore que transmite humanidade. E sofrimento, dor, expiação (?), mas também serenidade e uma beleza rara. A transparência do opaco, num acto de criação de realidade até para quem fé não significa dogma mas convicção nos homens, na sua generosidade e vontade em mudar o mundo. Falo do "Cristo Velato", escultura barroca do séc. XVIII, da autoria de Sanmartino Giuseppe. O local, Cappella Sansevero. O outro momento, talvez duas horas depois, com uma despedida. Quase sem palavras mas bem fraterna, com um abraço forte. Foi na Stazione Centrale, em Nápoles. Podia ter sido em Coimbra-B, há trinta anos atrás. Será daqui a trinta anos numa qualquer estação do mundo. Um até já pois a vida ainda tem tanto para nos dar e nós tanto para dar à vida... As férias não teriam valido sem este último dia. Grazie!

Cristo Velato

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